
espero pelo raiar do sol
estupidamente preso às palavras
que não chegam
que não foram
que não sabem
nada de ti
nada de mim
estupidamente preso às palavras
que não chegam
que não foram
que não sabem
nada de ti
nada de mim
nada daqui...


Algumas vezes, escolhemos o pôr-do-sol como refúgio e ficamos ali, diante do rio, observando os barquinhos passarem enquanto o poente avança, trazendo novas cores ao céu outrora apenas azul. Ao vermos o sol, já quase mergulhado no horizonte, invadem-nos harmonicamente o silêncio e a leveza, desarmando nossas mentiras, revirando-nos dos pés à cabeça, para então, levar-nos pra longe, tão longe que ao nos apercebermos já não cabemos mais em nosso próprio mundo e acabamos por sentir um imenso vazio – um vazio de nós mesmos. Nesses momentos, não há poesia, nem prece ou canção capaz de preencher-nos. Estamos sós, afagados por uma solidão faminta, atenciosa, paciente, meticulosa e fiel. Dói-nos a alma. A respiração concentra-se num só ponto. Os ossos estalam em desespero. É penoso o desnudar de si mesmo. Assustados, socorremo-nos da lucidez. Infalível! Os nossos olhos recobram a velha clareza ao verem um pássaro em vôo de retirada. A tranqüilidade retoma o seu lugar. Passamos a notar os carros, as pessoas, os cães vadios e aquele mendigo, a esperar. Com alívio, damos às costas ao que resta da tarde. Saudamos a rotina. Calculamos os próximos passos. Escolhemos o destino de sempre. Sempre. Ah! bom mesmo seria na loucura mergulhar antes do sol. E trazer do fundo do rio, estrelas cadentes na palma das mãos.