domingo, 8 de julho de 2007


espero pelo raiar do sol
estupidamente preso às palavras
que não chegam
que não foram
que não sabem
nada de ti
nada de mim
nada daqui...

segunda-feira, 18 de junho de 2007

chegas como chega um estranho
mas este é o teu lar
são teus os livros
tuas as botas
o medo de não saberes
onde cansado repousarás


e paras



por um instante




há algo faltando ali
algo faltando em ti



na tessitura do destino
condenado a si mesmo
escapou-lhe a solidão

imagem de siegfried

segunda-feira, 4 de junho de 2007


A noite acabou, meu amor
e você não esteve aqui.
Tinha outros mundos por descobrir,
eu sei.
(Não passo de um tolo escrevinhador de estrelas sem lar.)
Mesmo assim eu fui lá fora
descobrir estar vazia a cidade,
com tantas pessoas ocupadas e sorridentes.
(Até hoje, mantive-as longe daqui. Longe daqui!)
O nosso esconderijo, meu amor
de você esteve rarefeito.
Ruiu aceleradamente.
Nervoso.
Amargurado.
Carcomido pelo medo,
de nós dois.
Para sempre, você disse.
Mas o sol chegou mais cedo,
a mim vindo despertar.
Como quem nos rouba
um sonho bom.
Para nunca mais.

sábado, 26 de maio de 2007


estranhos
acomodados na mais perfeita tranqüilidade,
mentirosa
porque não há mais nada que os una
a não ser um ontem desolado,
escrito por mãos amedrontadas

(desfeitas,
as verdades acumulam poeira
e deixam-nos
sós)
imagem de escher

sábado, 5 de maio de 2007


estou a desperdiçar a vida, ela disse
é como se o tempo passasse sem aqui nada deixar
amor
fúria
ou sonhos

escondo-me do amanhã, ele disse
repulso a velhice cuspindo-lhe na cara minha insignificância
crueza
amargura
e medo

(agarrados um ao outro
consumiam-se em desespero
sustentando o fim )
imagem de dino valls

sexta-feira, 13 de abril de 2007


azul-empalidecido é o silêncio feito da poeira daquilo que preservamos quieto, dentro dos ossos – as horas revisitando os estilhaços dos nossos fantasmas insones. azul-encarnado é o silêncio das memórias rompendo a rigidez moribunda do tempo, além acima – as estações alinhadas diante do horizonte chuvoso [febris, trazemos nas mãos o desdizer do destino. e acreditamos que ainda podemos sonhar]

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Algumas vezes, escolhemos o pôr-do-sol como refúgio e ficamos ali, diante do rio, observando os barquinhos passarem enquanto o poente avança, trazendo novas cores ao céu outrora apenas azul. Ao vermos o sol, já quase mergulhado no horizonte, invadem-nos harmonicamente o silêncio e a leveza, desarmando nossas mentiras, revirando-nos dos pés à cabeça, para então, levar-nos pra longe, tão longe que ao nos apercebermos já não cabemos mais em nosso próprio mundo e acabamos por sentir um imenso vazio – um vazio de nós mesmos. Nesses momentos, não há poesia, nem prece ou canção capaz de preencher-nos. Estamos sós, afagados por uma solidão faminta, atenciosa, paciente, meticulosa e fiel. Dói-nos a alma. A respiração concentra-se num só ponto. Os ossos estalam em desespero. É penoso o desnudar de si mesmo. Assustados, socorremo-nos da lucidez. Infalível! Os nossos olhos recobram a velha clareza ao verem um pássaro em vôo de retirada. A tranqüilidade retoma o seu lugar. Passamos a notar os carros, as pessoas, os cães vadios e aquele mendigo, a esperar. Com alívio, damos às costas ao que resta da tarde. Saudamos a rotina. Calculamos os próximos passos. Escolhemos o destino de sempre. Sempre. Ah! bom mesmo seria na loucura mergulhar antes do sol. E trazer do fundo do rio, estrelas cadentes na palma das mãos.
imagem de ismael nery