quarta-feira, 24 de maio de 2006


Pequenos homens
de olhos vazados pela luz
e sorrisos amarelecidos pelo desuso
– voltam, sempre –
E trazem na carne o medo
a aprisionar aquilo que nunca terão.

segunda-feira, 1 de maio de 2006


era pra guardar num velho baú
era pra acomodar nas gavetas
era pra deixar quieto num canto
era pra ser apenas memória
era pra ser comum
era pra ser medroso

mas
não era
amor isso tudo?

quinta-feira, 27 de abril de 2006


As vozes
Não saem
Da minha cabeça

As vozes
Não cabem
Na minha cabeça

As vozes
Não pertencem
À minha cabeça
As vozes
Não sabem
As vozes
Não ouvem
As vozes
Não deixam
As vozes
Não


As vozes

A minha cabeça

terça-feira, 4 de abril de 2006

Wayne Forte
O espaço entre os músculos e a inquietação da alma
[novo ponto a ser sufocado]
Retrato absoluto de outra tarde desolada.

Minúsculo rizoma
onde o cinza prevalece – céu anunciando mudança climática.


A lua crescente é o que te parece mais lúcido
[velhos amigos envoltos em trapos]
Longe, as memórias acenam horizontes estanques.

Amórfico entardecer onde o azul rareia
– trinta e oito anos delimitados pela dor –


No one knows and no one came
No one knows and no one came
No one knows and no one came

Be my preferred angel
Be my preferred friend
Be my preferred true
– flesh and blood
of mine –

O que secretas te desnuda a essência
O que permites disfarça toda ausência
Quando aquietas é que te nutrem as esperanças.

Eat my sins
Redemption is here
Redemption is here
Redemption is here
Always here


No medo encontras aquilo que te imuniza
O que te falta quando a queda parece lampejo
Quando a ilusão não passa de um sorriso perdido


As entranhas ardem em desespero
As entranhas ardem em desespero

Entranhas
Desespero

segunda-feira, 20 de março de 2006



As paredes do quarto
Ganham outras formas e texturas
Quando as cores da primavera ficam mais distantes.

A alma tateia a superfície do medo
E o peso de cada momento redobra
Quando a chuva lá fora varre lembranças.

Nesta agônica cantiga
A crueza do abandono resvala nas horas
Quando a dormência dos indigentes infesta a esperança.

[cai sobre meus ombros o que restou das recordações]

Povoada por sons
A melancolia do poente anoitece a sanidade
Quando a febre em mim persiste.

Um lampejo e sou deus
Um aceno e desfaço ilusões
Um segundo a mais e seria poesia.

domingo, 5 de março de 2006





NOTAS ESPARSAS D’UMA MANHÃ SEM SOL
Haveria de ser algo que destroçasse
Nenhuma palavra poderia escapar
Dos nossos corpos suados e sós
Largados na cama como sobras
Disfarçando o amor até a medula
Na cômica cadência moribunda de cada dia

Haveria de ser algo que rasgasse
Nenhum sentimento poderia saber
Dos nossos mudos dissabores e nós
Amedrontados nos ossos sem fé
Cuspindo nas almas o escárnio
Na trágica dormência dos desejos descumpridos.

sábado, 25 de fevereiro de 2006




A solidão nos abraça, sempre
[para nos sufocar, deixa preso em nosso peito o azul-grito;
para nos acalentar, traz de volta à nossa infância o branco-alvorada]
A solidão nos olha por dentro, sempre
[sabe daquilo que enterraremos conosco, silêncio;
sabe daquilo que nos impediram calar, medo]
A solidão nos acompanha, sempre
[pelas tardes que nos escapam poentes, angústia;
pelas madrugadas que nos invadem famintas, demência]